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segunda-feira, 24 de junho de 2013

Tutorial - Memórias de Retirantes

Segue abaixo algumas orientações que irá auxiliar no processo de seleção dos entrevistados do nosso projeto de História Oral: "Memórias de Retirantes."

1 - Nome completo do possível entrevistado.
2 - Data de nascimento. 
3 - Cidade e Estado de Origem. 
4 - Data da vinda para o Distrito Federal. 
5 - Objetivos da entrevista. 
6 - Perguntas que vocês fariam ao entrevistado (seleção de perguntas, que irão conduzir a entrevista, sempre prestando atenção aos objetivos que pretendem ser alcançados com a entrevista). 
7 - Material que será utilizado na entrevista (gravador, celular, filmadora, colocar aquilo que vocês tem acesso).  
8 - Divisão das tarefas dentro do grupo.
9 - Disponibilidade para ser entrevistado (dias da semana, horário, etc). 
10 - Local onde o possível entrevistado reside.
11 - Possíveis formas de apresentação dos resultados obtidos na pesquisa.

Estes dados podem ser postados nos comentários abaixo, ou entregues a mim na escola. 
Para quem pretende entregar-me na escola, o prazo vai até o final desta semana. 
Para quem pretende postar este exercício no espaço dos comentário, não se esqueça de colocar o nome. 

Prof. Lucas Alves. 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A Triste Partida



Meu Deus, meu Deus
Setembro passou
Outubro e Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai
A treze do mês

Ele fez experiênça
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, ai
Rompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois barra não tem
Ai, ai, ai, ai
Sem chuva na terra
Descamba Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: "isso é castigo
não chove mais não"
Ai, ai, ai, ai
Apela pra Março

Que é o mês preferido
Do santo querido
Sinhô São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé
Ai, ai, ai, ai
Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nóis vamo a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai
Nóis vamo a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Ai pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
Ai, ai, ai, ai
E vende seu burro

Jumento e o cavalo
Inté mesmo o galo
Venderam também
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai
Em um caminhão
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajar
Meu Deus, meu Deus
A seca terrívi
Que tudo devora
Ai,lhe bota pra fora
Da terra natal
Ai, ai, ai, ai
O carro já corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai
No dia seguinte

Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Com seu filho choroso
Iscrama a dizer
Ai, ai, ai, ai
De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comer?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer
Ai, ai, ai, ai
E a linda pequena
Tremendo de medo
"Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?"
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou
Ai, ai, ai, ai
E assim vão deixando

Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo e azul
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos fio pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul
Ai, ai, ai, ai
Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Percura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Ai, ai, ai, ai
Trabaia dois ano,
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai
Se arguma notíça

Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade de móio
E as água nos óio
Começa a cair
Ai, ai, ai, ai
Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
Não vorta mais não
Ai, ai, ai, ai
Distante da terra
Tão seca mas boa
Exposto à garoa
A lama e o paú
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul
Ai, ai, ai, ai

sábado, 1 de junho de 2013

Os anônimos também fazem história.

Reportagem divulgada na versão impressa da revista Carta Fundamental 45, de fevereiro de 2013.


Com relatos que vão de moradores de rua a presidentes de empresas, o Museu da Pessoa reforça a importância da história oral e inspira escolas a integrar entrevistas com pessoas da comunidade ao currículo escolar. 
Por ISABELA MORAIS.




O Museu da Pessoa é um museu diferente. Lá, qualquer um, famoso ou não, tem espaço para expor. Não existem corredores, quadros ou esculturas. Localizado em uma casa na zona oeste de São Paulo, ele até recebe visitas, mas você pode acessar o acervo pelo site www.museudapessoa.net. E todos podem mandar contribuições para o acervo, já que, aqui, as atrações são os relatos de gente comum.

Tudo começou há 20 anos, por iniciativa da historiadora Karen Worcman, atual diretora-executiva do museu. Anos antes, entre 1984 e 1990, quando ainda estudava História na Universidade Federal Fluminense, Karen participou de duas pesquisas que tinha como base entrevistas. Os projetos estudaram a vida e a obra do fotógrafo José Medeiros e a história dos judeus imigrantes no Rio de Janeiro. Daí nasceu a ideia de que a história de cada um tem valor e, por isso, deve ser parte da história da sociedade.

Nas palavras de Sônia London , coordenadora dos programas de formação e disseminação do museu, o acervo possui relatos de vida que vão de moradores de rua a presidentes de empresas. Para participar, é preciso ligar e agendar uma entrevista. Todas as terças e quintas, o museu abre suas portas e recebe quem deseja gravar seu depoimento. No acervo do museu ficam registrados o vídeo, a transcrição da conversa e imagens feitas ali. Outro método para se fazer parte do museu se dá pela internet. No portal, é possível se cadastrar para enviar imagens, vídeos, áudios e textos. O conteúdo é colocado no ar e fica à disposição para consultas. Também pela internet, é possível ter acesso às outras histórias na íntegra. Após 20 anos de atuação, o acervo reúne mais de 15 mil histórias de vida e 72 mil documentos e imagens.

Além de receber, o Museu da Pessoa também vai atrás de histórias. No projeto Museu Que Anda, um estúdio itinerante percorre espaços públicos, como praças e eventos, à procura de pessoas dispostas a contar trechos de suas vidas. “Estipulamos um tema e as pessoas falam, por exemplo, sobre infância, trabalho, relacionamentos”, explica a coordenadora. Em parcerias com empresas, os pesquisadores do museu recolhem depoimentos que ajudar a recontar a história de corporações ou instituições.

O trabalho do Museu da Pessoa também repercute nas escolas. Desde 2001, Sônia é responsável pelo Projeto Memória Local na Escola, resultado da parceria entre o museu e o Instituto Avisa Lá. A ideia é registrar a memória do entorno, envolvendo os alunos na coleta das histórias dos moradores. Após mais de dez anos de atividade, Sônia indica, entre os benefícios de utilizar a história oral em sala, a aproximação entre escola e comunidade e o aumento da autoestima dos alunos, que são agentes ativos do projeto. Para a coordenadora, algumas histórias podem ainda revelar relações entre a escola e seu entorno que permaneciam desconhecidas. “Outro benefício é que a escola passa a ser produtora de conhecimento, e não apenas reprodutora, afirma”.

Samira Matiele, professora da Escola Municipal José Camilo dos Santos, em Duque de Caxias (RJ), aplicou o Memória Local na Escola em sua turma do quinto ano durante o segundo semestre de 2012. Ela explica as etapas: “Primeiro, nós escolhemos com os alunos a pessoa que será entrevistada. Depois, os estudantes montam o roteiro de perguntas. E, então, é feita a entrevista. Ela é filmada e há os alunos que anotam, os que entrevistam e os que desenham”. De volta à sala de aula, eles compõem o texto final e selecionamos os desenhos. No fim, tudo vira um livro, geralmente lançado em algum local público da comunidade.

Nos municípios de Guaíba (RS) e Indaiatuba (SP), a metodologia das entrevistas com pessoas da comunidade foi integrada ao currículo escolar do terceiro e quarto anos do Ensino Fundamental. Em São Bernardo do Campo, a memória local é conteúdo oficial da Educação de Jovens e adultos (EJA). Para Sônia, o intercâmbio da escola com a sociedade é um caminho para unir educação e cultura: “A escola sempre é vista como aquela que produz e dissemina conhecimento. Ao valorizar o conhecimento das pessoas da comunidade, reconhecendo as histórias locais, mostramos que existe um jeito diferente de estudar História e estimular o interesse dos alunos pela realidade em que vivem. A História não precisa ser contada só pelo historiador”.


Museu da Pessoa – Rua Natingui, 1100, São Paulo. Mais informações pelo tel. (11)2144-7150 ou no site www.museudapessoa.net.

O QUE É HISTÓRIA ORAL?


A História Oral tem sido uma metodologia recorrente nos trabalhos de pesquisa de vários historiadores nas últimas décadas. Com um gravador na mão, vários pesquisadores se aproximam de pessoas anônimas e famosas, narrando e registrando várias histórias de vida, possibilitando, inclusive, o aparecimento dos “esquecidos” da história, dando voz a sujeitos silenciados. A história oral faz parte de um processo incrível de produção de fontes históricas, que só tem a contribuir com as pesquisas historiográficas. 


Segue abaixo um texto retirado do site da Fundação Getúlio Vargas com maiores esclarecimentos a respeito das metodologias desenvolvidas nas linhas de pesquisa de História Oral. 



A história oral é uma metodologia de pesquisa que consiste em realizar entrevistas gravadas com pessoas que podem testemunhar sobre acontecimentos, conjunturas, instituições, modos de vida ou outros aspectos da história contemporânea. Começou a ser utilizada nos anos 1950, após a invenção do gravador, nos Estados Unidos, na Europa e no México, e desde então difundiu-se bastante. Ganhou também cada vez mais adeptos, ampliando-se o intercâmbio entre os que a praticam: historiadores, antropólogos, cientistas políticos, sociólogos, pedagogos, teóricos da literatura, psicólogos e outros.

No Brasil, a metodologia foi introduzida na década de 1970, quando foi criado o Programa de História Oral do CPDOC. A partir dos anos 1990, o movimento em torno da história oral cresceu muito. Em 1994, foi criada a Associação Brasileira de História Oral, que congrega membros de todas as regiões do país, reúne-se periodicamente em encontros regionais e nacionais, e edita uma revista e um boletim. Dois anos depois, em 1996, foi criada a Associação Internacional de História Oral, que realiza congressos bianuais e também edita uma revista e um boletim. No mundo inteiro é intensa a publicação de livros, revistas especializadas e artigos sobre história oral. Há inúmeros programas e pesquisas que utilizam os relatos pessoais sobre o passado para o estudo dos mais variados temas.

As entrevistas de história oral são tomadas como fontes para a compreensão do passado, ao lado de documentos escritos, imagens e outros tipos de registro. Caracterizam-se por serem produzidas a partir de um estímulo, pois o pesquisador procura o entrevistado e lhe faz perguntas, geralmente depois de consumado o fato ou a conjuntura que se quer investigar. Além disso, fazem parte de todo um conjunto de documentos de tipo biográfico, ao lado de memórias e autobiografias, que permitem compreender como indivíduos experimentaram e interpretam acontecimentos, situações e modos de vida de um grupo ou da sociedade em geral. Isso torna o estudo da história mais concreto e próximo, facilitando a apreensão do passado pelas gerações futuras e a compreensão das experiências vividas por outros.

O trabalho com a metodologia de história oral compreende todo um conjunto de atividades anteriores e posteriores à gravação dos depoimentos. Exige, antes, a pesquisa e o levantamento de dados para a preparação dos roteiros das entrevistas. Quando a pesquisa é feita por uma instituição que visa a constituir um acervo de depoimentos aberto ao público, é necessário cuidar da duplicação das gravações, da conservação e do tratamento do material gravado. É o que faz o Programa de História Oral do CPDOC.

RETIRADO DE HTTP://CPDOC.FGV.BR/ACERVO/HISTORIAORAL.